quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O que é ser diplomata?


Para muitos um diplomata é um indivíduo especializado em relações internacionais, um indivíduo refinado, requintado, educado, cortês, e com um elevado nível de cultura geral, conhecedor dos grandes dossiers da política internacional e cuja opinião sobre os mesmos deve ser tida em conta.

Para muitos, o diplomata é um indivíduo que leva uma boa vida: viaja muito, provavelmente fica hospedado em bons hoteis, vai a restaurantes caros, é convidado para cocktails, exposições, recepções e outras mundanidades, está coberto por uma série de regalias, privilégios e imunidades, sobretudo quando está em posto no exterior (colocado numa Missão Diplomática ou Consular), enfim para muitos o diplomata é um privilegiado e tem uma rica vida!!

Parte do que acima descrevemos é verdade, mas a realidade tambem tem alguns aspectos menos conhecidos pelo senso comum e pela maioria das pessoas, incluíndo aquelas que diariamente lidam com diplomatas, sejam elas parentes ou colegas de outras instituições.

Diplomata é estar disponivel, podendo ser chamado ao serviço nos sábados, domingos, feriados e por vezes à noite. O diplomata tem hora para entrar mas pode não ter hora para sair. O diplomata pode viajar muito, ir a muitas cidades e delas conhecer apenas o aeroporto, o hotel, o local da reunião e o trajecto entre esses três pontos...por vezes não há tempo para turismo, passeios ou mesmo descanso.

O diplomata representa o Estado no exterior do pais, mas essa situação, inerente à carreira que abraçamos tem consequências do ponto de vista familiar. Vejamos, quando o diplomata tem um cônjuge, noivo(a), namorado(a), tem de pensar na sua cara metade. Isso é óbvio. Se essa cara metade estiver a trabalhar, como fazer? A carreira dele(a) fica emstand-by, de modo a que possa acompanhar o seu cônjuge diplomata? É um dos dilemas que se coloca ao diplomata e à sua familia. Esse dilema torna-se ainda mais crítico quando a diplomata é uma senhora. O marido, noivo, namorado vai aceitar acompanhá-la durante quatro anos pondo a sua carreira em stand-by, ficando lá sem trabalhar? Sim, porque é preciso que se saiba, de acordo com a Convenção de Viena, de 1961, sobre as Relações Diplomáticas (de que Angola é parte), por força das imunidades a que tem direito, os cônjuges e demais membros do agregado familiar dos diplomatas não devem exercer nenhuma actividade remunerada.

Importa igualmente referir que os privilégios e imunidades estipulados pela Convenção de Viena de 1961, nos seus artigos 29-36, implicam um elevado grau de responsabilidade e respeito pelas leis, normas e regulamentos do Estado acreditário (Estado onde se situa a Missão Diplomática ou Consular aonde o diplomata em questão exerce as suas funções).

Outra questão que muitos diplomatas se colocam concerne a dupla nacionalidade. Muitas pessoas, têm duas nacionalidades, ou por nascenca ou porque a algum momento das suas vidas, adquiriram-nas. Ao pretenderem tornar-se diplomatas, colocam-se inevitavelmente a questão: “tendo dupla nacionalidade, posso tornar-me diplomata?” Se sim “sob que condições?”

A questão da nacionalidade coloca-se igualmente no que diz respeito ao conjuge, noivo(a) ou namorado(a), caso não tenha a nacionalidade do Estado que o seu cônjuge, noivo (a), namorado (a) serve. O casal coloca-se inevitavelmente a questão: “podemos casar-nos sem consequências para a carreira do diplomata?”

Como vemos, ser diplomata não é sempre muito fácil, em qualquer parte do mundo. No caso de Angola, temos igualmente ter em conta diversos aspectos relacionados com a nossa conjuntura, com a nossa realidade, com a nossa cultura de trabalho e organizativa, com a organização e articulação do sistema burocrático da administração pública, e inevitavelmente com diversos interesses, que devem ser tidos em conta no momento da tomada de uma decisao ou da manifestacao de uma opiniao.

No entanto, muitas pessoas, mesmo depois de conhecerem igualmente as dificuldades e constrangimentos que se impõe aos diplomatas, continuam na carreira diplomática, e continuam a dar o melhor de si. Por que motivo? Meus caros diplomatas e leitores deste blog, além de se tratar de uma profissão interessantíssima, os diplomatas que se dedicam de facto à sua carreira, estão apaixonados por ela. Sim, porque só a paixão pode explicar elevados níveis de entrega face a tantas dificuldades e constrangimentos.

Eis o ingrediente essencial para a actividade diplomática dinâmica, rica, vibrante e enriquecedora: paixão.

O diplomata angolano deve ser um romântico que acredita que as coisas vão melhorar, que os conflitos vão ser resolvidos e que a sua entrega será recompensada por um benefício muito maior que qualquer dificuldade ou constrangimento, a honra e oprivilégio de servir... De servir o Estado angolano com honra, dedicação e abnegação, no melhor das suas capacidades intelectuais, para promover a imagem e bom nome do nosso país.

É por isso que somos diplomatas! Isso sim, é ser diplomata!


Aguinaldo Baptista